sábado, 20 de maio de 2017

[Resenha] Crônicas de Amor e Ódio #3: The Beauty of Darkness

“[...] eu me peguei pensando na forma como nós mudamos, em todas as forças externas que nos pressionam, moldam e nos empurram para que sejamos pessoas e coisas que não planejáramos ser. Talvez isso acontecesse de forma tão gradual que, na hora em que notássemos que isso tinha ocorrido, seria tarde demais para que fôssemos outra coisa.” (Página 321)


“The Beauty of Darkness” começa exatamente depois do cliffhanger, no mínimo maldito de “The Heart of Betrayal”. Lia e Rafe conseguem escapar de Venda, porém não de graça, já que deixam para trás uma pilha de corpos, da qual Lia Lia quase faz parte após levar duas flechadas e cair no grande rio – não me perguntem como ela não morreu...

Rafe carrega uma Lia semimorta pelos arredores de Venda, onde eles reencontram o grupo de Rafe para seguirem viagem até um posto de comando de Dalbreck. Claro, sempre olhando por cima de seus ombros com medo da sombra dos assassinos enviados pelo Komizar. Também teremos uma outra pessoa a busca de Lia, um certo assassino em especial, se é que vocês me entendem...

“Eu rezo para que nenhuma filha do seu reino tenha que jamais lutar para que sua voz seja ouvida, como eu tive que fazer.” (Página 553)


Olha... Foi difícil esperar por esse livro. Eu cheguei mesmo a cogitar que a Lia morreria no final de “The Heart of Betrayal”, já que esse livro terminou arrancando nossos corações pela boca... Só tenho a agradecer a DarkSide Books por ter adiantado a publicação de “The Beauty of Darkness” e ter poupado meu coração de um infarto! <3

Neste último volume, teremos uma narrativa alternada entre Lia, Rafe, Kaden e Pauline, o que torna o livro mais dinâmico, já que temos a visão de outras pessoas para quebrar a narrativa. A única coisa, é que eu esperava mais capítulos do ponto de vista da Pauline, inclusive eu esperava uma maior participação dela, de Gwyneth e de Berdi...

“Se em algum momento houve três cavaleiros ímpares, éramos nós: o príncipe da coroa de Dalbreck, o Assassino de Venda e a princesa fugitiva de Morrighan. Filhos e filha de três reinos, cada qual determinado a dominar os outros dois.” (Página 79)

“Mas e a Lia?” É impressionante o crescimento dela desde “The Kiss of Deception”. De uma princesa sem perspectiva e assustada ela se ergueu para ser uma verdadeira rainha. A forma com que Mary E. Pearson cria e desenvolve personagens femininas deveria ser, no mínimo, obrigatória em todos os livros.

Lia luta com as armas que lhe foram dadas. Ela consegue se equiparar a qualquer homem usando sua astúcia e raciocínio, não seus punhos (aliás, a bichinha também é boa de briga). Um dos grandes diferenciais dessa trilogia é justamente isso: o empoderamento feminino sem a masculinização ou o uso de artifícios sobrenaturais. As personagens aqui são pessoas comuns, que lutam por seus ideais empunhando apenas sua coragem e determinação.

“Será que isso me tornava um pouco mais do que um animal? Era assim que eu me sentia agora, como se fosse um nó de dentes e de garras pronto para matar qualquer coisa que cruzasse a porta.” (Página 373)

O que eu posso dizer desse livro sem dar spoilers? (praticamente uma tarefa impossível) Haverá uma grande batalha que ameaçará o futuro dos reinos, e Lia deverá abraçar seu dever como Primeira Filha e finalmente encarar o Dragão.


Apesar da promessa de um evento que abalará o futuro de tudo e todos, o livro demora um pouco para engatar – um pouco que é igual a 300 páginas – porém, esse tempo só serve para aumentar a tensão do grande confronto e expandir ainda mais o mundo criado pela autora.

Neste meio tempo, haverá uma imersão de Dalbreck – o único reino ainda “desconhecido” – somos introduzidos a alguns aspectos da cultura e política desse reino, assim como também conhecemos um pouco mais sobre a historia de um dos reinos com poder militar mais forte, se não o maior deles.

Diversas revelações sobre Morrighan serão feitas. Planos serão descobertos e traidores serão expostos, o único problema é que Lia aparentemente é uma das únicas que acredita nisso. Ela tem em mãos a difícil tarefa de expor os agentes do dragão e salvar os reinos da obliteração, já que ela é a esperança e a salvação.

“Embora a espera possa ser longa, A promessa é grande para aquela chamada Jezelia, Cuja vida será sacrificada pela esperança de salvar a sua” (The Heart of Betrayal – Página 376)

O final dessa trilogia foi avassalador. Tudo, desde a primeira página, caminhou para esse destino. Mary E. Pearson não poderia ter dado um fim melhor do que este. Todas as peças se encaixaram perfeitamente e o quadro formado da um tom de esperança e novos caminhos a serem trilhados.

“Não deveria fazer diferença se eu sou uma criada de taverna ou uma princesa. Quando eu o vir tratando os outros com respeito, independentemente da posição que ocupam, ou da sua anatomia, então seu pedido de desculpas significará alguma coisa.” (Página 513)

Espero que as “Crônicas de Amor e Ódio” sirvam de exemplo para futuros livros com personagens femininas. Chega de criar personagens que precisam abaixar a cabeça e esperar serem salvas. Temos que lutar com as armas que nos foram fornecidas. É essencial e obrigatório, a presença de sentimentos positivos entre mulheres. Chega de criar personagens que agem como víboras peçonhentas. Mulheres podem e são fortes a sua própria maneira. Nós temos capacidade para trilhar o caminho que bem desejarmos, e devemos ter Lia como inspiração da força que existe dentro de nós mesmas.


“Pendurei a outra mão sobre o ombro de Pauline e puxei-a para perto de mim. Nós nos apoiamos uma na outra, com os braços enrolados um no outro, testa com bochecha, queixo com ombro, lágrimas e força nos unindo.” (Página 375)

Apesar de ter amado esse livro, tenho alguns pontos negativos a abordar... Antes que alguém jogue pedras em mim lembre-se: essa é a minha opinião. Esse livro fechou uma trilogia muito especial que sempre terá seu lugar no meu coração, porém diversos pontos ficaram largados, como se a autora estivesse com pressa de terminar o livro...

Uma das coisas que mais em incomodou nesse livro foi a coincidência de sempre alguém chegar exatamente na hora certa. Vamos pensar assim: Morrighan e Venda estão a cagalhões de quilômetros de distância, a viagem de um reino ao outro levaria semanas, para não dizer meses. A mesma coisa se aplica a Morrighan e Dalbreck, claro que em uma escala menor. Entretanto, no exato momento (situação hipotética, isso não é um spoiler) em que uma espada vai arrancar a cabeça da Lia BOOM! Kaden e Rafe saem da fumaça e estão lá com uma porrada de gente para bloquear a espada...

Entendo que certas incertezas são necessárias para o desenvolvimento da história, porém não venha me dizer que eles tinham uma bola de cristal para prever quando eles seriam necessários e saiam de seus respectivos reinos no segundo exato para coincidir sua chegada com a espada sendo levantada. Esse tipo de subterfúgio/joguete é uma forma preguiçosa de construir uma narrativa...

Agora vamos comentar sobre o fator de cura do Wolverine que a Lia possui. Ela levou duas flechadas, sendo uma delas nas costas e caiu de uma ponte em um rio bravo (rawl), que quaaaaaaaaaaaaaase tira sua vida. Como se não bastasse, ela é carregada por 20 quilômetros até que alguém finalmente cuida de seus ferimentos. Se você já levou um chute sabe que no dia seguinte suas pernocas estarão duras, agora imagine levar duas flechadas e cair em um rio. Aonde eu quero chegar? Como a Lia, com o pouco tempo de descanso que ela teve – não mais do que uma semana – simplesmente levanta, monta em um cavalo e sai galopando pelo Cam Lanteux?? O cavalo tinha amortecedores pressurizados para ela não sentir nada?

Tudo bem, ela é uma mulher forte e tinha um dever com o seu povo, agora não me venha dizer que ela foi curada com o poder da determinação em salvar Morrighan...

A partir daqui começa realmente a zona de spoilers, então se você ainda não leu “The Beuaty of Darkness” é hora de nos despedirmos.


Vamos tratar de outro ponto: A inconformidade de Lia perante ao acordo político entre Morrighan e Dalbreck. Ela sabia que era um casamento por interesse, então obviamente ambos os reinos se beneficiariam de alguma forma. A forma que Dalbreck seria “paga” por essa aliança é, em dado o ponto, descoberta por Lia e ela fica puta com Rafe (!!!!) Como assim? Ela não sabia que era tudo uma questão política? CALMA, O QUE ESTÁ ACONTECENDO?

“Rafe, você já se perguntou por que tinha que ser eu a ir para Dalbreck para garantir a aliança? Isso não poderia ter sido obtido também com a sua ida a Morrighan? Por que sempre é a moça que precisa desistir de tudo? [...] Por que um homem não pode adotar a terra natal da esposa?” (Página 60)

Agora vamos focar um pouco nos personagens: Como Rafe consegue ser tão conformado e amoroso em “The Heart of Betrayal” e ser um completo babaca em “The Beauty of Darkness”? No começo, que dura mais ou menos 300 páginas, ele é extremamente machista e dominador, querendo manter Lia presa em uma caixinha e a arrastar até Dalbreck, vivendo feliz para sempre. Mesmo que isso signifique o fim de todos os reinos, afinal de contas o Komizar quer nivelar a porra toda.

“Ah, mais o Rafe fez isso por amor!” Ok, certo. Mais esse tipo de confronto não deveria ter acontecido no livro anterior, quando eles estavam começando a conhecer mais sobre o outro? Eu imagino que enquanto eles estavam sendo mantidos prisioneiros em Venda, haviam algumas questões mais importantes a serem tratadas como, que tal, a sobrevivência deles. Porém, depois de descobrir tudo o que eles descobrem sobre os planos e o tamanho da loucura do Komizar, Rafe ainda acredita que a Lia vai abandonar todos que ela ama (novamente, não vamos esquecer que ela fugiu do casamento), e deixar Morrighan ser destruída por Venda? Claro que sacrificando a vida de milhares de inocentes no processo, já que o exército de Venda é composto por um grande número de crianças...

No mínimo esse lado do Rafe nos faz questionar instaloves (não é o caso aqui), já que o charmoso e galanteador príncipe, após conquistar a moçoila, pode deixar cair a máscara de boa pinta, e o que estava sendo escondido, assim que revelado, pode não ser nem um pouco agradável...

Apesar dessa cagada, ele se redime e mostra que tudo o que ele fez foi por medo de perder Lia, e agora ele sabe que ela deve ser livre, já que tem uma obrigação maior perante seu povo, assim como ele com Dalbreck.


“O amor não acabava de uma vez só, não importando o quanto fosse necessário que isso acontecesse ou quão inconveniente fosse. Não se pode mandar no amor mais do que um documento de casamento poderia ordenar que ele surgisse. Talvez o amor tivesse que se esvair sangrando uma gota de cada vez até que chegue um tempo em que o nosso coração esteja entorpecido, frio e, na maior parte, morto.

“Nossa você nem comentou do Kaden...” É porque não teve quase nada para comentar. Achei que ele fosse ter um papel maior no desfecho dessa trilogia, ainda mais pela relação que ele tinha com o Komizar e o fato de ele possuir o Dom, o que aparentemente a autora esqueceu completamente nesse livro... Ele chega super solícito até Lia e sai em busca do “pai” que o vendeu para mendigos. Teremos todo um plot paralelo sobre o papel do pai de Kaden nas tramóias do Komizar e olha... Não consegui me importar tanto assim, fora que a grande revelação não foi tão chocante... O Assassino de Venda, dada a oportunidade de finalmente matar seu pai, não faz nada? O que a autora quis com isso? Mostrar que o temido assassino agora tinha um coração?

Kaden mudou muito desde que saiu de Venda em “The Kiss of Deception”, todo esse caminho trilhado serviu para mostrar que não se deve confiar cegamente em alguém, mesmo que essa pessoa tenha salvado sua vida. A vida de Kaden foi marcada pela desgraça desde muito cedo, e ele poderia continuar de olhos fechados para tudo, matando inocentes a mando do Komizar. Porém, Lia abre seus olhos e faz com que ele perceba que o buraco é mais embaixo... Sua caminhada o levou até um momento de redenção. Ele já pagou por seus “crimes” e batalhou por sua felicidade, então porque não simplesmente ser feliz?

O último ponto “negativo” a ser abordado é: CADE A PORRA DO KOMIZAR? Vai acontecer a maior treta desde a queda dos antigos e vão se passando as páginas e essa batalha não chega nunca. Ai, faltando 30 páginas, chega o grande momento do confronto entre a Lia e o Komizar e na página seguinte já acabou. Ei! Espera ai... Tive que ler duas vezes para ver se eu era burra ou se eu estava lendo certo. Sim, o grande confronto: Jezelia vs Dragão de muitas faces, acabou em uma página...


Apesar das deslizadas com relação aos pontos abordados acima, o final dessa trilogia não poderia ser melhor. “Ai, mas ela não fica com o fulano!” Seria muito triste se tudo o que ela passou pudesse ser “evitado” – claro que a batalha aconteceria e provavelmente todos estariam mortos – apenas abaixando a cabeça e aceitando seu casamento, não seria?

O ponto principal desses três livros é o auto descobrimento de Lia. Ela acreditava que não era nada, apenas um peão a ser usado pelo seu pai, noivo, reino, etc... Porém, ela descobre que o seu destino pertence a ela mesma, cabe a ela trilhar os seus próprios passos e encarar as consequências de seus atos.

“Essa seria a última vez que eu choraria, não importava quantos outros corpos empilhássemos para que fossem queimados ou enterrados. A imensidão da morte era entorpecedora. No entanto, eu sabia que, em algum ponto, as lágrimas voltariam.” (Página 552)

O amor e a esperança de Lia são uma das chaves dessa trilogia. O romance que acontece entre ela, Kaden e Rafe não é o foco. Lia ama Morrighan e Venda como uma mãe ama um filho. Ela é capaz de sacrificar a própria vida por ambos os reinos. Assim como Rafe ama e sente obrigação em cumprir seu dever perante Dalbreck.

Ambos não ficaram juntos no final – apesar de o final ser aberto a interpretações do que acontecerá no futuro – pois eles escolheram “sacrificar” o amor que um tinha pelo outro para salvar seus reinos. Esse fato não agradou muita gente...

“É estranho como nós podemos vislumbrar o nosso futuro, mas não podemos saber de tudo sobre ele [...] Imagino que história ainda maiores estejam por vir.” (Página 565)

Se tudo se resumisse ao triângulo amoroso, essa não seria uma trilogia original e empoderada como foi. Seria apenas mais um livro de romance clichê, com personagens fracas, um enredo previsível e batido, e disso, já estamos saturados até a boca...


Autora: Mary E. Pearson 
Editora: Darkside 
Número de páginas: 576 
Classificação: ★★★★/

2 comentários:

  1. Ualll Marisa, adorei a análise sobre os prós e contra do livro. O livro termina com um final que ficou aberto mesmo, mas se houver continuações que seja para explicar e aprofundar mais sobre os reinos, outro ponto que tu comentou foi em relação ao Komizar, realmente foi um embate que senti falta desde o início. Agora ainda sim, amei esse livro tb por tudo que ele significou na jornada de Lia. Parabéns pela resenha.
    Bjs
    Denise

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    Respostas
    1. Obrigada Denise! <3 Essa trilogia sempre vai ter um lugar especial nos nossos corações! <3
      Vamos torcer que "Dance of Thieves" chegue logo!
      Beijos~

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